terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Fenómeno

DEAN KARNAZES ENCHEU A CARA DE TEQUILA no seu aniversário de 30 anos, em Agosto de 1992. Voltou para casa trançando as pernas e infeliz com a vida que levava: engravatado num emprego chato, lutando para subir na vida, seguindo a boiada sem questionar o porquê. Nos fundos de casa, achou um velho par de ténis. Fazia muitos anos que ele não os usava para uma corrida - desde os tempos de colégio, quando participava de corridas de montanha e provas de atletismo. Vestiu os sapatos e tirou as roupas, deixando só as cuecas samba-canção e a camiseta. E saiu correndo para parar só 48 km depois. Ele se sentiu ridículo, mas também feliz como há tempos não acontecia. E percebeu que tinha dentro de si um potencial secreto, esperando para ser descoberto e explorado. Desde então, Dean vem desafiando todos os limites imagináveis da resistência humana, sem nunca encontrar o seu próprio. Correu 560 km sem parar (levou mais de três dias).
Venceu a Badwater, ultra-maratona de 215 km que é considerada a prova a pé mais dura do mundo. Escreveu um livro, O Ultra-maratonista, que se tornou best seller e que acaba de ser lançado no Brasil. Mais recentemente, encarou o Endurance 50, um desafio em que correu 50 maratonas em 50 dias consecutivos, uma em cada estado norte-americano. E agora está entre os indicados para a lista das cem pessoas mais importantes do mundo, elaborada anualmente pela revista Time. Como conseguiu tudo isso? É simples, como você perceberá nesta entrevista exclusiva: não há nada que Dean Karnazes ame mais do que correr pelas montanhas, centenas de quilômetros a fio. - Como exactamente a noite de bebedeira te transformou num ultra-maratonista? Dean Karnazes: Eu me perguntei: "Como seria uma vida perfeita?". Nela eu passaria bastante tempo com minha família e fazendo o que amo, que é explorar os limites da resistência humana. Depois dessa noite, passei anos conciliando a vida empresarial e desportiva, até que decidi viver só do desporto. - Logo em sua primeira corrida "adulta", você fez 48 km. Você acha que tem algum tipo de predisposição genética que te permite suportar tão bem o esforço? Sim, não sou muito inteligente [risos]. Brincadeiras à parte, acho que tenho uma biomecânica e um alinhamento muito bons - dois factores essencialmente hereditários. Dizem que a melhor coisa que você pode fazer como ultra-maratonista é escolher bem seus pais [risos]. Fora isso, sou um cara normal. Acredito, de verdade, que qualquer um pode fazer o que faço se for apaixonado por isso, treinar e se sacrificar com tanta aplicação quanto eu. Não sou único. - Numa semana normal, quando você não está correndo uma maratona por dia, qual é sua rotina? Acordo às 4 da manhã e corro 30 a 40 km por um percurso lindo, pelas trilhas de montanha ao longo do Pacífico. Preparo o café-da-manhã e levo as crianças para escola. Entre os e-mails, telefonemas e o tempo que passo escrevendo, faço séries de abdominais, agachamentos e barras. Pode soar engraçado, mas não me sento para trabalhar. Isso me deixaria louco. Comprei uma mesa alta, onde coloquei o meu computador portátil. Fico de pé em frente a ela. E se alguém quiser fazer uma reunião comigo, será uma reunião andando, correndo ou trotando. As reuniões "móveis" são muito mais eficientes. Três ou quatro vezes por semana, aproveito as tardes para fazer windsurf, andar de mountain bike ou surfar. - O que mais você adaptou para satisfazer seu vício por movimento? [Risos] Tenho uma barra e um colchonete no meu escritório, então faço uma série rápida de abdominais e flexões quando tenho dez minutos. - O que é uma série rápida? Faço uma série de 50 flexões. Vinte em estilo militar, dez com a pegada fechada (faça um triângulo com as mãos), dez com as pernas e braços abertos e dez em que você começa de pé, põe as mãos perto dos pés e faz uma flexão plantando bananeira. É a série da marinha americana. Um amigo meu é da marinha e me ensinou. - Você faz algum exercício abdominal especial? Sim, faço 25 elevando pernas e costas do caminho, tirando as omoplatas do chão como se fosse uma prancha rígida. Depois, 25 abdominais normais, com os pés apoiados no chão, e 25 com as pernas, joelhos e pés esticados para cima, subindo somente a parte superior do corpo. E minha série de barras: 12 barras normais, 12 levando a barra atrás da cabeça, e então repito segurando na barra ao contrário. Faço quatro séries de manhã e quatro séries à tarde, entre telefonemas, e-mails e outras coisas que tenho para fazer. - Você vive num barato constante de endorfina? Essa é uma boa maneira de ver a coisa. É quase como me sinto. Isso é resultado de fazer o que gosto e também da minha dieta. Cortei todos os açúcares refinados e diminuí o consumo de comida processada. A dieta afecta muito o meu humor, então tento ter a alimentação mais orgânica possível. - Então você nunca come chocolate? Não, nem tenho vontade. Foi difícil me libertar do açúcar, tenho que admitir. Levou um mês. No começo dá muita vontade, mas se você resistir, se sentirá muito melhor. Seu nível de energia ficará mais constante. Quando estou competindo, porém, mando ver nas gorduras. Como pizzas, chocolates, tudo de mais calórico. Se numa prova você comer alimentos orgânicos, cheios de fibras, você se saciará antes de ter ingerido calorias suficientes. Quando corri 560 km, queimei 40 mil calorias. - A alimentação natural te ajuda a sobreviver com quatro horas de sono por noite? Acredito que a dieta tem um grande papel nisso. Decidi dormir menos quando ainda trabalhava o dia inteiro e não tinha tempo para fazer os treinos longos que queria. Aprender a dormir pouco também foi um processo muito, muito difícil, que levou um mês. Eu colocava o alarme, me forçava a levantar e ficava grogue. Mas agora essas quatro horas de sono são muito recuperativas. Antes eu dormia sete ou oito, mas ficava revirando na cama. - Você recomendaria a ultra-maratona para uma pessoa normal? Acho que a ultra-maratona simboliza a vida. Você percebe que nada vem fácil e que as coisas às quais você se dedica são as mais recompensadoras. Correr 150 km é um compromisso enorme. Não há como dar um jeitinho e enganar os outros numa corrida dessas. Quando uma pessoa cruza a linha de chegada, é uma enorme conquista. Mas existem diferentes paixões. Nem todo mundo gosta de correr. Se você é músico, seja o melhor músico que puder. Atire-se de coração ao que ama e você se realizará. - É preciso doer para ser recompensador? A cultura ocidental está meio de ponta-cabeça. Achamos que se tivéssemos todos os confortos possíveis, estaríamos felizes. E hoje estamos tão confortáveis que ficamos infelizes. Não há a sensação de conquista, de aventura em nossas vidas. Descobri que me sinto mais vivo quando dou o máximo de mim, quando estou com dor e lutando por algo muito difícil. Acho que há mágica nesta luta. - Se sofrimento te dá prazer, como você se diverte? Diversão para mim é virar a noite correndo. Você parece muito bem adaptado ao stress. - Quais as suas técnicas para lidar com a pressão? Uma coisa que nunca fiz e que espero nunca fazer é me levar muito a sério [risos]. Isso já reduz o stress. Também divido as responsabilidades. Não dá para você controlar tudo, especialmente se vai correr 300 km. Meu compromisso é fazer o meu melhor, dar tudo o que posso. Mesmo quando eu falho, e já falhei muitas vezes, não me sinto um fracasso porque sei que fiz o melhor. Isso também diminui o stress. - Seja sincero. Você se considera um obsessivo-compulsivo? [Risos] Diria que até certo ponto, sim. Felizmente tenho conseguido canalizar isso para as actividades outdoor, mas tenho amigos que são como eu e não acharam válvulas de escape tão saudáveis... -Que benefícios te traz o cross-training, ou seja, praticar outras modalidades como forma de treino? São uma alternativa quando não estou a fim de correr, mas quero ficar ao ar livre. Adoro escalar, surfar, fazer snowboard e mountain bike. Acho que construir um corpo globalmente forte ajuda a prevenir lesões e retarda a chegada e a intensidade das dores nas articulações. Ter uma boa massa muscular permite me recuperar mais rápido porque os músculos tiram grande parte da carga das articulações, judiando-as menos. Andar de windsurf, por exemplo, é como fazer musculação para as costas por três horas seguidas. O que você acha de ter um treinador? Meu lema é: "Ouça todos, não siga ninguém". Acho que o melhor que podemos fazer é manter a mente aberta, tentar novas coisas, conversar com pessoas diferentes para daí extrair o que pode funcionar para você. Eu não tinha um técnico até começar a treinar com o Chris Carmichael, no começo de 2006, e tem sido uma óptima experiência. Eu já estava muito bem fisicamente antes do Chris, mas ele me ajudou a trazer um novo olhar, uma perspectiva diferente. Nem tudo o que ele tentou deu certo, mas algumas coisas eu nunca teria pensado em fazer e foram muito benéficas. - Em seu livro, você fala em ser competitivo não com outras pessoas, mas consigo mesmo. É assim que você vive? É. Não dá para se comparar com outras pessoas. Você sempre se sairá mal, porque somos nossos maiores críticos. Aprendi que os atalhos não valem a pena na corrida ou na vida. Na ultra-maratona, se você pega atalhos, você paga o preço, e não é somente na performance. Quando você está no quilómetro 130 e pronto para desistir, no fundo de sua mente você está pensando: "Eu roubei no treino, devia ter feito aqueles 20 km que faltavam". E você sabe que não fez. Não tomar atalhos é uma vantagem física e psicológica. - E o ego? Onde ele entra? O ego pode ser um obstáculo. Um exemplo são as mulheres ultra-maratonistas, que são incríveis. Muitas vezes os homens, especialmente os mais jovens, saem num ritmo muito forte nos primeiros 70 ou 80 km de uma corrida de 150. No quilómetro 100, estão quebrados. Então a mulher vem em seu ritmo constante, sem preocupações de ego, e os ultrapassa. - Mas é preciso autoconfiança, convicção de que se é capaz de correr tanto, não? É preciso acreditar que você pode fazer, e isso é algo treinável. A beleza da ultra-maratona é provar para si mesmo que você pode fazer coisas que nunca achou possíveis. Se alguém me dissesse há 20 anos que eu iria correr 150 km, eu teria dito: "Um ser humano não pode fazer isso, quanto menos eu!".
E as tácticas mentais para cruzar a linha de chegada numa prova particularmente difícil? Uso uma técnica que chamo "passos de bebé". Na primeira vez que corri 320 km, houve um momento no 260 em que eu não conseguia levantar da sarjeta. Já tinha corrido 40 horas sem parar e mal ficava de pé. Pensei: "Não vou conseguir correr mais 60 km". Então mudei meu paradigma. Disse a mim mesmo: "Não pense nos 60. Foque em se levantar". Tentei, tentei e finalmente fiquei em pé, e comemorei essa vitória. "Ok, agora vá até aquela placa no fim da rua". Fui e disse: "Muito bem, agora até aquele poste". Fiz isso incontáveis vezes e depois de dez horas cruzei a linha de chegada. - Pergunta técnica. Bolhas, você as estoura ou não? Estou com duas bolhas agora, porque corri na chuva e as meias ficaram molhadas. Uma delas eu estourei, a outra não. Se estiver tão inchada a ponto de doer, estoure. Mas se estiver baixa e não piorar quando você coloca o ténis, eu acho melhor tentar correr sem mexer nela. A melhor maneira de tratar uma bolha é não tê-la. Gosto de usar Bodyglide (pomada importada, feita com triglicérides, aloe vera e vitamina E, que lubrifica a pele e elimina a abrasão) nos pés. Tenho amigos que usam talco para manter os pés secos. Eu não gosto. - O que você bebe e come durante seus treinos de corrida? Eu corro com uma mochila de hidratação com bebidas desportivas. Levo umas barras energéticas e às vezes um pouco de "misturinha" de castanhas e frutas secas. Também levo dinheiro, assim posso me reabastecer em algum lugar no meio do caminho, se precisar. - Você não correu durante 15 anos. Já parou para imaginar o que teria acontecido se nunca tivesse parado? Que distâncias você estaria correndo hoje? É assustador imaginar [risos]! Sim, fiquei um tempão sem correr. Mas, uma vez um corredor, sempre um corredor. O espírito não desaparece. - O corpo humano é capaz de feitos extraordinários, você diz. Você acredita que a carga a que sujeita seu corpo - correndo mais do que qualquer ser humano já correu, dormindo somente quatro horas por noite - cobrará seu preço? Se eu achasse que estou judiando do meu corpo, eu pararia. Fui examinado, analisado, cutucado, e segundo todos os testes, estou aguentando muito bem. Não há sinais de danos, ao contrário: quanto mais duro eu treino, mais forte eu fico. - Chris Carmichael te comparou a Lance Armstrong. No que você se identifica (ou não) com ele? Lance é um ídolo, mas somos bem diferentes. Ele sempre foi um atleta profissional, enquanto eu estudei, fiz faculdade e depois trabalhei no mundo corporativo por muitos anos. Corrida e desporto eram, até recentemente, um hobby, algo que só agora se tornou o meu meio de vida. Acho que Lance e eu temos em comum a resistência mental. Admiro o ciclista tremendamente, não só porque ele é um grande atleta, mas também porque arrecadou milhões de dólares para as pesquisas sobre o cancro. - Como é sua recuperação? Quanto você precisa descansar depois de uma corrida de 60 ou de 120 km? Depois de uma corrida de 60 km, estou bem para correr no dia seguinte. Descobri que meu "limiar" é 110 km. A partir daí, preciso de alguns dias para me recuperar. E sou fã de carteirinha dos banhos de gelo para ajudar a recuperação - Qual foi sua estratégia durante o Endurance 50? Você tinha menos de 24 horas para estar pronto para outra maratona... Eu e o Chris Carmichael estabelecemos como objectivo fazer as maratonas em quatro horas, com uma frequência cardíaca média de 110 batimentos por minuto ou menos, e conseguimos. O grande truque da recuperação era não ultrapassar demais o meu limite, para não entrar num défice que pudesse comprometer a maratona do dia seguinte. - Qual foi seu tempo médio nas 50 maratonas? Acho que foi um pouco abaixo de quatro horas. Algumas das maratonas eram em trilha, com muitas subidas e descidas e terreno técnico, e fez muito calor em algumas delas (na do Arizona fez 40ºC). Acho que a mais lenta eu fiz em 4h46min, era uma maratona em trilhas bem difíceis. Lembro que corri a maratona de St. George, em Utah, em 3h20min, com um batimento médio de 120. Fui mais rápido em Nova York, mas minha frequência cardíaca estava bem mais alta. Tudo bem - era a última e eu podia dar tudo. - Seu tempo na maratona de Nova York é três horas. Você faz treinos de velocidade? Cheguei em três horas depois de ter corrido 49 maratonas nos 49 dias anteriores. Talvez, se minhas pernas estivessem descansadas, eu poderia ter sido mais rápido, não sei. A verdade é que nunca treinei para essa distância, só treino para as provas com mais de 100 km. - Você acaba de terminar o Summit to Sydney, um desafio em que correu 590 km em seis dias, cruzando a Austrália. Como foi? A ideia era eu subir correndo a montanha mais alta do país, a Kosciusko, e dali correr 590 km até Sydney. Disseram-me que a partir do cume era só descida, então estimei que conseguiria correr 90 a 100 km por dia. Só que o percurso acabou se mostrando extremamente montanhoso. Subimos e descemos a Great Divide duas vezes, grande parte por estradas de terra. Tive que me esforçar muito para cobrir as distâncias que precisava cobrir. Foi uma grande aventura, em vários aspectos. É para isso que eu vivo! - De todos os desafios que você enfrentou, qual foi, até hoje, o mais difícil? Acho que a maratona até o pólo Sul continua sendo a mais dura. Corri o mais rápido que pude e levei nove horas para terminar. As condições eram atrozes. A neve era tão alta que tornava quase impossível correr. E eu fiz de ténis! Era a primeira edição dessa corrida, que nunca mais foi realizada. Ainda bem - era incrivelmente difícil e perigosa. - Ainda há reservas não exploradas dentro de você? Muitas! Ainda não achei meu limite e vivo de acordo com as palavras do escritor T. S. Elliot: "Nunca pare de explorar". A vida é muito curta para a vivermos de qualquer outra maneira.
em: http://gooutside.terra.com.br/Edicoes/25/artigo52161-5.asp

5 comentários:

Scherzan disse...

Tou sem palavras.
Isto é sobre humano...

margarido disse...

SE queres consegues e só assim conseguirás os objectivos

ricardo ferreira disse...

Essa frase devia se aplicar a um atleta, o iron man como tu margarido.
Mas pelos vistos nao tem aplicaçao porque tu desististe no Madeira Ultra Trail bah

Mónica disse...

Tanto quanto sei, o Dean Karnazes também já desistiu em provas e no entanto não deixa de ser um grande atleta de provas ultra.

ricardo ferreira disse...

Concordo contigo plenamente Mónica, mas o caso do Margarido é muito diferente hehe